Baleia Azul: jogos podem mesmo induzir adolescentes à morte?

Baleia Azul: jogos podem mesmo induzir adolescentes à morte?
abril 18 23:51 2017 Imprimir Este Artigo

O portal Gazetaonline conversou com um psiquiatra e uma psicóloga sobre o game que virou caso de polícia no Brasil. Veja as orientações e explicações dos especialistas.

Jogos como o “Desafio da Baleia Azul” podem induzir adolescentes à morte? A resposta para a pergunta é sim. Mas boa parte da decisão vai depender do estado emocional do ‘jogador’. E o fato de o desafio ser voltado para o público adolescente traz um alerta a mais. No Brasil, dois casos de morte estão sob investigação policial, em Mato Grosso e na Paraíba, além de uma tentativa de suicídio, no Rio de Janeiro, que supostamente podem ter relação com o jogo. Aqui no Espírito Santo, segundo a Polícia Civil, não há registros em relação ao game.

O psiquiatra Fábio Barbirato explica que o ‘Desafio da Baleia Azul’ – jogo online que pode convencer o participante a fazer provas perigosas, como automutilação desenhando baleias com instrumentos afiados em partes do corpo, e até a se matar – ou qualquer outro game que exponha o jovem a situações de risco podem fazer sim com que ele se machuque ou chegue ao ponto de tirar a própria vida.

“Por ser mais impulsivo, o jovem tem uma possibilidade maior de se arriscar e de agir sem pensar nas consequências. O cérebro dele ainda está em formação”, afirma.

Para a psicóloga Angelita Scardua, especialista em Desenvolvimento Adulto e Felicidade, o impacto é maior nessa faixa etária porque, em geral, o adolescente é mais suscetível à instabilidade emocional.

“Ele está em um estágio do desenvolvimento psicológico, de autodescoberta, em que tem dúvidas sobre quem ele é, o que quer fazer da vida e o que é importante ou não. É uma fase de transição e ele tem conflitos emocionais, sendo mais suscetível a influências externas. Por isso, é uma presa mais fácil para fenômenos como o desafio da baleia azul”.

Outro atrativo do desafio para o público jovem é fazer parte de um grupo secreto. “Dá uma sensação de ser especial. O grupo oferece um tipo de referência. Por esse motivo os jovens são tão atraídos por grupos”, avalia a especialista.

Angelita destaca que o estrago é maior se tiver a combinação de instabilidade emocional e uma estrutura familiar frágil. “Se o jovem tem uma estrutura familiar emocionalmente forte, ele consegue procurar um suporte para enfrentar o sofrimento. Mas se sente que não tem um lugar para buscar apoio, ele tem mais chance de se machucar, chegando à morte. É um conjunto de fatores. Tanto que nem todos os jovens que se envolvem com o jogo se matam. O desafio tem um apelo, mas só vai fazer efeito se existirem as pré-condições.”

Mas afinal, o que leva um adolescente a entrar em um jogo como esse? “Um jovem saudável não vai entrar nessa relação de submissão com um desconhecido. É um sofrimento que revela um vazio. A vida perde o valor. Ele a entrega para o outro fazer o que quiser”, explica a psicóloga.

OS MOTIVOS

Várias circunstâncias podem induzir uma pessoa a cometer um ato extremo. E a condição emocional de cada um é uma predisposição para se envolver em desafios como esse. “Fim de relacionamento, demissão, uso de drogas, uma fé religiosa. Vai depender do estado emocional. Se a pessoa estiver saudável, não é vulnerável ao jogo. Mas se ela não estiver bem, ela vai ser”, observa a psicóloga.

OS PAIS

Ter controle sobre o que o filho conversa na internet é a sugestão do psiquiatra. “Pai e mãe têm esse direito. Não tem essa de ter privacidade”, defende o psiquiatra Fábio Barbirato.

Já Angelita recomenda construir uma relação de confiança para que, quando o filho passar por dificuldades, sinta-se confortável em conversar com os pais. “Isso se constrói no dia a dia. Hoje, as famílias não conversam mais, vivem muito isoladas. Os pais, muitas vezes, não conhecem o filho. Não sabem a música que escutam nem o que eles fazem. Não precisa ficar grudado, mas mostre interesse verdadeiro por ele.”

ATENÇÃO AOS SINAIS

Prestar atenção no comportamento do filho é uma grande ajuda. Observe mudanças no desempenho escolar, como notas baixas ou afastamento dos amigos. Mudanças radicais e rápidas no visual, além de excesso ou falta de sono e apetite, são outros alertas.

COMO SURGIU O DESAFIO?

O que atualmente está sendo conhecido como “jogo”, na verdade, é uma sequência de troca de mensagens em redes sociais e tarefas a serem cumpridas. Nas conversas, um grupo de organizadores, chamados “curadores”, propõe 50 desafios macabros aos adolescentes.

Em entrevista ao G1, o presidente da Safernet, Thiago Tavares, o jogo foi um “fake news” (notícia falsa) divulgada por um veículo de comunicação estatal da Rússia que se espalhou a partir de 2015. “Era um ‘fake news’, mas existe um efeito que, sendo verdadeira ou não, a notícia gera um contágio, principalmente entre os jovens. O jogo não existia, mas com a grande repercussão da notícia, pode ter passado a existir”, explica.

Tavares lembra que o “efeito contágio” tem suas consequências reais, e não virtuais. “O efeito contágio é um fenômeno muito anterior à internet, e particularmente comum entre adolescentes e jovens”, avalia.

Fonte: Gazetaonline Foto:Reprodução